Profissão vs Academia

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Minha colega de classe desabafou de prato cheio ontem em uma aula de Planejamento Estratégico de Marketing. Sempre a mesma metodologia: aula teórica, case para discutir a teoria em grupo, cada grupo fala sua opinião e o professor encerra a aula com a afirmação correta – pelo menos o que ele acha que é certo. Não muda nada desde a graduação? Quando entramos na faculdade, o objetivo da instituição de ensino é formar profissionais capacitados e prontos para entrar no mercado de trabalho, já que toda a formação teórica será aplicada na prática durante o curso. Eu achava que era o momento para deslanchar minha carreira profissional e fazer contatos importantes, trocar experiências – além do mais, sonhar não paga imposto.

Nada disso. Não deslanchei minha carreira, pelo contrário, ficava pulando de um estágio para outro, sendo que todos eles não me agregavam em nada – eu era mais uma mão-de-obra barata que não precisava ser efetivada quando terminasse a faculdade. Você até tenta deixar seu currículo mais atraente, coloca uma palavra difícil no começo e termina com uma requintada. No quadro de vagas e estágios então, somente com experiência de 256 anos na área X, segmento Y, subsegmento XYZ e faculdades de primeira linha – alguém sabe desde quando o MEC classificou os cursos dessa maneira?

Contatos? Todos que conheci ou estavam fazendo faculdade para mudar de emprego ou porque estavam desesperados para alcançar aqueles que já tinham feito algo “genérico” – os famosos cursos de 2 anos. “Eu só quero o diploma.”

Diante de um cenário tão desanimador, eu nunca desanimei. Depois de tanta luta, fui conseguir algo realmente concreto e promissor no último ano de faculdade, e ainda não era a área que eu queria. A faculdade até então continuava na mesma metodologia e, para completar, sempre transmitia aquela impressão de que todos os alunos iam sair de lá como CEOs ou com uma empresa montada nas costas (as aulas de empreendedorismo pareciam receitas de bolo mostradas pela Nigella e Jamie Oliver: quando você tenta fazer, sai tudo diferente). As vagas de estágio também não tinham mudado muito: o requisito agora restringia alunos do penúltimo e último anos – que medo de contratar formandos!

Depois de ter conseguido finalmente entrar na área em que tanto queria, não quis perder tempo para fazer uma pós. Não demorei muito, dei uma folga de seis meses. Minha expectativa em relação a um curso de especialização era: leia o segundo parágrafo. Manteve-se a mesma situação, o mesmo cenário. Mas não posso falar que nada mudou, pois agora tenho o que adicionar no meu currículo.

Lembro meu primeiro dia de aula, quando o professor disse que deveríamos estar orgulhosos por fazer parte do 1% que tinha oportunidade de iniciar um curso superior. Eu acho que essa porcentagem aumentou um pouquinho. A cada esquina e a cada mês aparece uma faculdade ou uma universidade, fazendo valer a risca a lei da oferta e da demanda. Faculdade não é mais instituição de ensino, virou produto como qualquer outro estampado na vitrine. Não vou entrar no mérito de qualidade, pois esse fator não depende só do corpo docente da faculdade, depende do aluno também.

Voltando para minha colega de classe, ela também passou por tudo isso, mas felizmente conseguiu entrar na área que ela quis. A pós ajudou a conseguir essa oportunidade, mas só isso. O conteúdo do curso em si, totalmente teórico e totalmente fora da realidade lá fora. A metodologia em si continua remota, ultrapassada e estática. Dinamismo e pensamento “fora da caixa” ainda são tabus no meio acadêmico, o que é essencial para se trabalhar em qualquer empresa hoje. Na sala de aula, os professores não podem fugir das aulas expositivas que fazem o tédio e o sono reinar.

Por outro lado, o que poderia ser sugerido como uma aula diferente? Pedir para cada aluno contar sua experiência profissional sobre tal assunto, pesquisar sobre material na internet – e não só os acadêmicos, por favor! -, desde notícias até artigos, convidar profissionais da área para dar palestras. São exemplos simples mas que fazem diferença na hora do aluno avaliar se o curso que ele está pagando realmente vale a pena.

É hora de repensar os conceitos da Academia e abrir portas para o mundo que está se tornando mais colaborativo e participativo. É hora de interagir e de renovar.

José Brandão & Jacacarambola

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Uma resposta to “Profissão vs Academia”

  1. ana laura gomes Says:

    olá josé!

    só para apimentar um pouco mais seu questionamento: quando isso deve acontecer? já ouviu falar da Escola da Ponte em Portugal, perto da cidade do Porto? (http://www.eb1-ponte-n1.rcts.pt/) Lá eles fazem diferente com as crianças… dá trabalho, mas é legal!
    bjs

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